4 Comentários
Avatar de User
Avatar de User
Comentário deletado
Apr 2, 2025
Comentário deletado
Avatar de Professor Debochara

Oi, Carla. Preciso citar trechos de sua mensagem para melhor lhe responder:

"Como sou médica, [...] me incomoda deveras dizer 'uretér' e 'catéter', ambos termos corriqueiros na fala médica"

Esse incômodo é puro juízo de valor. Você pode gostar, desgostar, preferir uma forma a outra, mas existem vários fatos linguísticos demonstrando que nossos julgamentos negativos sobre pronúncias, conjugações e sintaxes nem sempre correspondem àquilo que é gramaticalmente errado em português (como se dá, por exemplo, com "presidenta", com verbos tratados como defectivos, com formas condenadas apenas com base na tal eufonia, que é um critério subjetivo, variando conforme a época ou de pessoa para pessoa etc., enfim, usos consolidados em língua culta e que carecem de unanimidade entre os gramáticos, ou mesmo que são tidos como corretos por todos eles). Uma coisa é apreciar ou não uma forma em português, preferindo uma forma ou outra, por questão estilística, por preferência pessoal; outra coisa é condenar uma forma usual em detrimento de outra ou mesmo dizer que, além de você, todo mundo deveria necessariamente evitá-la.

Vale reforçar aqui o fato óbvio de haver tantos médicos até hoje pronunciando "caTÉter" (fato aliás reconhecido e admitido entre os próprios gramáticos em suas obras), demonstrando que a pronúncia varia mesmo entre sua própria classe profissional.

"No latim catheter ficamos sem saber, pois sua ortofonia é desconhecida."

Conforme consta no meu texto, o entendimento de filólogos e gramáticos (Cândido de Figueiredo, Napoleão etc.) sobre a pronúncia latina é de que ela é paroxítona, e que seria essa a razão pela qual a palavra, ingressando em português na primeira metade do século XIX, teve sua pronúncia em nossa língua consolidada como tal. No entanto, MESMO que pudéssemos desconsiderar esses pareceres ou contestar efetivamente isso, enfim, mesmo que concordemos que a ortofonia seja desconhecida, esse suposto fato em nada desaprovaria a pronúncia "caTÉter", até mesmo porque há inúmeras palavras oriundas do latim ou grego cuja pronúncia sofreu hiperbibasmo (deslocação do acento tônico em sua passagem do latim para o português: latim "eRAmus" > português "Éramos"), e a tentativa erudita de tentar resgatar a prosódia da antiguidade clássica se mostra tão arbitrária quanto artificial, como foi o caso de "miÓpe" (prosódia grega original), que o mesmíssimo Ramiz Galvão, proponente de "cateTÉR", recomendava com a mesma justificativa etimológica dada a essa palavra. Inclusive há teses de que a sístole (hiperbibasmo) que se processou do grego "cateTÉR" até o português "caTÉter" (intermediado ou não pelo latim) pode ter sido justamente a busca por melhor eufonia ('Pontos essenciais em fonética e fonologia', Cavaliere, 2011).

"Me parece que os antigos estudiosos portugueses preferiram a forma 'catéter' por influência da grafia francesa 'cathéter'. Como os franceses chamam o ureter de 'uretère', o problema não se colocou."

Seria preciso encontrar fundamentos para essa sua hipótese (e isso revelaria uma atitude um tanto ignorante por parte de brasileiros que estudavam e falavam francês). Seja lá qual for sua origem, o uso que se consolidou entre a elite acadêmica / científica daqueles tempos (seja influenciado pelo francês, seja resgatando a prosódia grega) ia de encontro à pronúncia usual / corrente da mesma época (conforme descrito pelos dicionaristas e ensinado pelos gramáticos de então). Não se trata de uso moderno surgido da língua popular (e aí, SIM, haveria razão para se justificar a correção). A intenção e a tentativa de impô-la como única correta e a outra, errada se mostram, portanto, uma grande arbitrariedade sem base alguma no uso consolidado (que inclusive, de modo geral, é um critério para se estabelecer algo como correto no vernáculo), fundamentada apenas em elitismo da classe acadêmica/científica, o que corresponde ao critério do "le bon usage" para correção da língua, concebido na França e baseado na "elite das vozes", considerada "a forma de falar da parte mais sã da Corte" (Vaugelas, 1647), que aliás foi onde provavelmente surgiu o purismo moderno.

"É preciso lembrar que a terminologia médica segue um percurso linguístico muitas vezes sui generis: do grego, passando pelo latim popular ou pelo latim erudito, e muitas vezes passando por outras línguas romances, mormente o francês, antes de chegar ao português, pela enorme influência cultural francesa na Península Ibérica. Isso complica bastante as coisas."

Então é preciso lembrar também que isso nem sempre determina a pronúncia original, etimológica, das palavras em português. As formas como as palavras ingressam (e consolidam) numa língua OU num meio / círculo social ou profissional são as mais diversas possíveis, e repare que, mesmo com toda influência cultural francesa da época, nada impediu que a pronúncia mais corrente / usual entre os médicos se tornasse "cateTÉR" em vez de "caTÉter" (fato, repito, devidamente reconhecido por gramáticos contemporâneos, como Rocha Lima, Nougué e Sacconi, que prescrevem a prosódia oxítona em suas obras, e também por dicionaristas). Aliás, MESMO que considerássemos que a pronúncia paroxítona "caTÉter" surgiu e se consolidou no português por puro acidente ou ignorância de falantes brasileiros E portugueses (sim, porque tanto lá como cá o usual é "caTÉter"), o que importa, no fim das contas, é o uso que se consolidou, e não sua origem clássica. Vale lembrar que "busílis", hoje uma palavra culta, não tem etimologia clássica, tendo nascido exclusivamente de um erro de latim cometido por um monge no século XII.

"Na verdade o acento agudo não determina a ortoépia em francês, tem apenas significado fonético em relação às letras 'e' e 'é': o diacrítico (διακριτικός) tem função de tonema, sem influência na prosódia da palavra, oxítona para os próprios franceses. A pronúncia da letra 'e' em francês mais se assemelha ao nosso 'o', enquanto que ao ter o diacrítico 'é', tem exatamente o mesmo som que o nosso 'é'."

Não entendo por que você detalha essa questão da acentuação francesa (como se eu justificasse a pronúncia paroxítona do português com base em algum entendimento equivocada da acentuação francesa). Essa peculiaridade gráfica do francês nenhuma diferença exerce sobre a forma que, no fim das contas, se consagra em outra língua. O hiperbibasmo (no caso específico, uma sístole) está aí para comprovar isso. Enquanto falantes de português brasileiro, podemos consolidar tanto a pronúncia original de palavra oriunda do francês quanto outra que a língua acabar adotando pelas mais espontâneas e desconhecidas razões (como alguma facilidade para a pronúncia daquela palavra em português por parte de seus falantes, por exemplo, ou por razões de eufonia, conforme já comentado).

"Como não me vejo dizendo 'uréter' em hipótese alguma: (a) para não assustar ninguém e (b) por absoluta falta de embasamento que alicerce essa mudança..."

Eu não vejo você assustando alguém dizendo "uréter". Talvez assuste quem é mais guiado pela pronúncia monitorada / prescrita, e não pela popular (mas não todo mundo). Em Portugal, a pronúncia usual E ensinada sempre foi "uRÉter"... No Brasil, nosso gramático mais tradicional e conservador ensina que a pronúncia correta é "uRÉter"... Ou seja, você ter chances de assustar alguém com "uRÉter" dependerá muito de com que estiver falando. (Também não há base para se falar em "mudança", um vez que a ortografia do português ensinava "uRÉter" mesmo, sendo essa palavra alvo do mesmo eruditismo de Ramiz Galvão). Eu ouço muito mais "uréter", "catéter" do que as formas prescritas, mas entendo que, ao dizer "para não assustar ninguém", esse "ninguém" deve levar em conta mais o segmento profissional com o qual você convive do que os demais (médicos e leigos em geral). Por isso mesmo não concordo com a justificativa "por absoluta falta de embasamento que alicerce essa mudança". O que existe aí é apenas o temor de ser corrigida por quem conhece a forma prescrita pelos gramáticos contemporâneos (como quem sabe que a pronúncia usual na fala é "duzentas gramas", mas se autocorrige para "duzentOs gramas" para não ficar mal em seu meio, mais monitorado / patrulhado). É, portanto, mais uma questão social do que linguística / gramatical.

"Continuo dizendo os clássicos termos ureter e cateter como oxítonos." 

Não há nada em meu texto que conteste, contrarie ou não recomende a pronúncia oxítona. O que eu contesto é a imposição de uma pronúncia não original e menos usual em português EM DETRIMENTO de uso consolidado há séculos por puro capricho e elitismo eruditista. Nessas horas, vale lembrar que, se seguíssemos à risca as demais lições pedantes desse mesmo Ramiz Galvão, estariam corrigindo a pronúncia "mÍope" para "miÓpe", entre outras bizarrices que podemos encontrar em seu Vocabulário.

Avatar de User
Comentário removido
Apr 7, 2025
Comentário removido
Avatar de Professor Debochara

Então está escutando muito mal. Toda e qualquer pessoa, seja homem, seja mulher, teme ser corrigido(a) por outra pessoa (seja em público, seja em círculo restrito). E isso se dá independentemente de gênero ou classe social. Leia sobre o conceito de hipercorreção, por exemplo, e você descobrirá isso.

Avatar de 𝕯𝖎ego Lops

Uma outra questão, mas ainda sobre preferências de pronúncia de termos médicos. Eu conheci a palavra “alopecia” lendo-a, e não tive qualquer dúvida quanto à sua óbvia pronúncia com a sílaba tônica no “i”. Mas fui falar com uma amiga médica e, para minha surpresa, ela disse “alopécia”. Depois disso, já passei por 3 dermatologistas e todos falam “alopécia”, apesar de escreverem sem acento.

Acho isso curioso, mas, acima de tudo, irritante, pois toda vez que falo “alopecia” eles dizem “alopécia”, como se estivessem me corrigindo. E nada pior do que ser corrigido quando não se está errado.

Avatar de User
Comentário deletado
Apr 2, 2025
Comentário deletado
Avatar de 𝕯𝖎ego Lops

Como disse, não acho que estejam errados, se todos falarem assim, com o tempo os dicionários vão descrever e o Volp vai incluir. E viva a democrácia.